Trabalhei durante vários anos na Editora de Publicações Científicas, empresa que editava várias revistas médicas, entre elas o Jornal Brasileiro de Medicina, e que encerrou suas atividades em 2016. Eu era um dos revisores dos artigos publicados nas revistas, muitos deles escritos por profissionais que estão hoje nas TVs opinando sobre a pandemia que nos assola. Mesmo não sendo profissional da área médica, com a leitura dos textos eu conseguia dimensionar o cuidado que a indústria farmacêutica e os médicos dispensam ao desenvolvimento (um processo que quase sempre leva anos) e à prescrição de medicamentos. Eu lia sobre Covid, e nem imaginava que a 19 iria causar esse estrago todo.
Qualquer um de nós sabe que a prescrição errada de um medicamento, ou uma dosagem fora do aceitável, em muitos casos ao invés de fazer bem pode até matar um paciente. Não é segredo que às vezes os efeitos colaterais de um remédio são mais nocivos do que a própria doença que ele se propõe tratar. Com certeza todos nós estamos torcendo para que logo apareça uma vacina ou um remédio que cure as pessoas com Covid. Se for a cloroquina, ótimo! Ela é de baixo custo, genérico, acessível a todos. Mas se todos nós estamos torcendo pela cura da Covid, por que dois médicos abriram mão do prestigioso cargo de ministro da saúde para não endossarem o uso ampliado da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento da doença?
Mandetta é médico, mas também é político. Alguns podem alegar que sua resistência à vontade presidencial foi motivada por ambições políticas. Mas Teich não é político. É um profissional médico bem-sucedido, inclusive no aspecto empresarial. Como revelou no discurso de despedida, queria ser ministro. Era mais ligado a Bolsonaro do que Mandetta — inclusive esteve envolvido na campanha presidencial. Por que ele se recusou a ampliar o protocolo de uso da cloroquina? Porque vários estudos internacionais ainda não atestaram a eficácia do medicamento. Li que antes de pedir demissão ele consultou alguns hospitais para se atualizar sobre o tema. Sua negativa talvez se deva ao cuidado com sua carreira profissional, ou à preocupação com vidas humanas. Porque médicos lidam com vidas, quase sempre estranhas para eles, mas que significam muito para aqueles que as cercam.
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