segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Nova Reforma?



Há alguns dias, a revista Época trouxe como matéria de capa uma reportagem intitulada A Nova Reforma Protestante. Segundo a visão do articulista, seria um movimento inspirado no cristianismo primitivo, através do qual um grupo de evangélicos estaria tentando recriar o Protestantismo, indo de encontro ao movimento neopentecostal, predominante por aqui.

Todos nós conhecemos a história da Reforma do século XVI e os fatos que a desencadearam, quando alguns homens corajosos arriscaram a própria vida ao se voltarem contra os absurdos praticados pelo clero, em nome de Deus. O filme Lutero recria muito bem a situação caótica da igreja naquela época. Vemos hoje a mesma história se repetindo, com nova roupagem: a teologia da prosperidade prometendo o paraíso aqui, a variedade de unções, os rituais animistas, a idolatria das terras bíblicas e outras bizarrices. Diante do atual estado de coisas, devemos admitir que algo deve ser feito. Mas, o que fazer?

Lutero tentou reformar a igreja. Não conseguiu. Penso que os novos luteros de hoje, as pessoas que preservam o genuíno evangelho também não conseguirão reformar esta igreja que está aí na mídia. Digo isto porque tenho certeza de que esta igreja que vende curas físicas e prosperidade financeira não é a Igreja de Cristo, não é a Igreja do Reino, mas uma instituição que pertence ao apóstolo tal, ao bispo tal ou ao patriarca tal. Uma empresa religiosa, e, como tal, comprometida com o bom desempenho e com o lucro. Esta igreja já tem seu destino traçado. Sua recompensa está aqui mesmo na terra.

A Igreja do Reino é invisível, mas a maioria de seus membros vive em instituições religiosas. E é bom que seja assim. É bom que irmãos com o mesmo objetivo vivam congregados. Há comunhão, troca de experiências, adoração comunitária, consolo mútuo e parceria na difusão do evangelho. Deus chama súditos para o seu Reino e os coloca em várias formas de instituições religiosas (que chamamos de igrejas), com vários tipos de governo, alguns até diferentes daquilo que estamos acostumados a ver. Jesus disse que se duas ou três pessoas se reunissem em seu nome (não importa como) ali ele estaria, ali estaria uma parte da igreja que ele fundou, a Igreja do Reino. Uma Igreja do Reino não representa um fim em si mesma, mas se reúne em nome de Jesus.

Há um equívoco na matéria da Época quando fala em recriação do Protestantismo. Na verdade, vemos alguns cristãos que não aderiram a esse falso evangelho — seres humanos normais, com suas imperfeições e contradições — levantando uma bandeira comum contra o caos religioso no qual está mergulhado o nosso país. Mas o verdadeiro evangelho nunca saiu de cena. Este Evangelho do Reino — que já morou nas catacumbas de Roma e sobrevive a duras penas no seio da igreja perseguida nos países muçulmanos e comunistas — vive e sempre viverá em algumas igrejas bem organizadas, históricas ou pentecostais, em algumas comunidades e também entre grupos de estudos bíblicos como o daquele cirurgião geral que abre a polêmica matéria da revista Época.

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