Um dos efeitos colaterais da profusão tecnológica na qual estamos inseridos neste início de século é o acúmulo cada vez maior do chamado lixo eletrônico. A maioria de nós tem em casa — ocupando os espaços cada vez mais exíguos dos minúsculos apartamentos vendidos hoje em dia — celulares fora de uso, aparelhos de som com pequenos defeitos, mas ainda funcionando, e inúmeros acessórios de informática, que de seis em seis meses ficam obsoletos. Os japoneses, os sul-coreanos e outros povos, digamos assim, mais civilizados contam com programas de reciclagem que possibilitam o descarte daquilo que já não atende aos seus anseios de consumo. Por aqui, começamos a trilhar esse caminho, mas, como a questão tem implicações culturais, vai levar algum tempo até que cheguemos ao nível dos países mais desenvolvidos.
Vender ou dar? Algumas vezes esse dilema vem à tona. Aquele PC comprado há três anos, que para alguns custou uma grana preta, agora não vale nada em termos financeiros. Está completamente obsoleto, anos-luz atrás dos notebooks da geração mais recente (esperamos que não seja a última). Mas o valor de uso é sempre maior do que o valor monetário, sem falar na questão afetiva. E o que dizer das velhas máquinas de escrever? Não servem para nada quando não estão expostas em museus, visitados por crianças curiosas em saber como funcionava aquele objeto estranho. Mas para um velho escritor, já na casa dos 80, aquela Remington com o teclado gasto com as marcas dos seus dedos tem um valor afetivo incomensurável. Ele não a vende por dinheiro algum.
E o que os computadores e a velha Remington têm a ver com o voto? Nada e tudo. O voto é um velho instrumento da democracia. Nivela todos os cidadãos, ricos e pobres, das comunidades e do asfalto, do campo e das cidades. Todos têm o mesmo peso, o mesmo valor diante da urna eletrônica. Por isso ele é muito valioso, é muito caro para ser trocado por um maço de notas de real ou por um emprego. Seu valor de uso sempre será maior do que qualquer dinheiro ou outra vantagem pessoal.
Não venda seu voto. Parece um paradoxo, mas ele é muito valioso para ser vendido.

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